O artista do Futsal


Carlos Paulo é barbeiro em Alfama e guarda-redes do Belenenses.

Tal como na ópera de Rossini, na qual Fígaro era um barbeiro que fazia de tudo em Sevilha, Carlos Paulo é um barbeiro que faz tudo no seu bairro. Apesar de estar sempre disponível para ajudar quem mais precisa, ainda tem tempo para ser titular na equipa de futsal do Belenenses.

Começou a jogar futsal no Castelo, um clube perto de Alfama, onde cresceu e ainda hoje vive. Guarda ótimas recordações desse tempo. “Foi onde praticamente tudo começou a sério, no Grupo Desportivo Castelo, com 15 anos.”

Quando era pequeno, Carlos Paulo ainda tentou o futebol de 11. “Era defesa central, mas não correu muito bem. Então fui para a baliza e acho que foi a melhor opção.” E porquê guarda-redes? “Foi num jogo de futsal. Estava à frente, entretanto só tínhamos um guarda-redes, que se magoou, e fui eu para a baliza. O jogo até correu bem. Desde aí foi até hoje”, recorda.

Aos 18 anos, recebeu um convite para ir treinar ao Benfica. Um dia inesquecível na vida do guarda-redes do Belenenses. “Estava na praia quando me ligaram a perguntar se queria treinar no Benfica. E eu: ‘sou mesmo eu? Não se enganaram?’ Saí logo da praia, agarrei nas minhas coisinhas e fui contar logo à minha família e aos meus amigos.”

Em 2010, conquistou o título mais importante da carreira, a UEFA Futsal Cup. “Foi inacreditável! Estar no MEO Arena com 10 mil benfiquistas foi um momento único na minha carreira e na minha vida”, regozija-se.

Em 2011/12 foi emprestado ao Dramático de Cascais e em janeiro de 2014 rescindiu com o Benfica para assinar pelo SL Olivais. Uma época muito importante na sua carreira por ter somado minutos em campo e se ter juntado ao irmão Bruno Paulo, hoje novamente colega de equipa no Belenenses, e ao primo Mapuata, que joga no Vila Verde. “Sentia que estava a precisar de jogar. Gostava muito de estar no Benfica, como é óbvio, deixei lá amigos, mas hoje consigo dizer que tomei a melhor decisão.”

No início da época passada transferiu-se para o Belenenses e até marcou dois golos. “É instinto. É um bocadinho de maluquice e é a oportunidade. Às vezes a equipa está a atacar três para um e quando agarro a bola sinto que vou apanhar a equipa em contrapé e lá vou eu. Correu bem. Se tivesse corrido mal se calhar não tinha tanta piada”, conta.

Um craque também fora das quadras
No plano extra-futsal, há dois anos começou a trabalhar como barbeiro em Alfama. A mãe foi cabeleireira, quando jogava no Benfica já cortava o cabelo em casa aos irmãos e aos primos, no balneário cortava aos colegas e o interesse foi crescendo. “Há dois anos tomei a iniciativa de tirar o meu curso e tive oportunidade de entrar na Barbearia Oliveira.”

Semanalmente, pegam numa carrinha e percorrem a cidade para cortar o cabelo às pessoas mais necessitadas. “À noite agarramos num banquinho e andamos aí pelas ruas de Lisboa. Dizemos: ‘somos barbeiros, quer vir tratar da sua imagem? Cortar o cabelo ou fazer a barba? Não paga nada.’” E como surgiu esta ideia? “Não é uma ideia. É um sentimento, é a vontade. Por que não ajudar? Não custa nada”, justifica.

Questionado sobre o reconhecimento que tem por parte das pessoas, Carlos tem uma resposta contagiante. “Espetáculo! Chego a casa, tomo um banhinho, sento-me no sofá e é tão bom. Ajudar, saber ouvir e ajudar os outros.”

Alguns jogadores de futsal frequentam habitualmente a barbearia, casos de João Matos, Pedro Cary, Bebé, entre muitos outros. Por enquanto não recebeu qualquer reclamação. “Até agora nunca me chegou nada aos ouvidos. Tenho tido sorte. Se voltam é porque gostam.”