“O futebol feminino começa a ter mais visibilidade”


Formou-se no 1.º Dezembro, onde começou a jogar com apenas 14 anos. Hoje, dez anos depois, Solange Carvalhas já tem uma grande história para contar. 

Depois de seis épocas no clube sintrense e de uma breve passagem pelo A-dos-Francos, a extremo esquerdo de 24 anos jogou no Anderlecht na Bélgica, antes de chegar ao seu “clube do coração”, o Sporting.

A capitã do clube de Alvalade revela-se contente por ter a oportunidade de ser jogadora profissional em Portugal. Depois da licenciatura, deixou o mestrado em “stand-by” para poder agarrar esta oportunidade, mas sempre com o apoio dos pais, que ficaram na Bélgica a torcer por ela. E com razão, pois já é a melhor marcadora do campeonato feminino.

Solange Carvalhas falou ao site do SJPF sobre o seu regresso a Portugal, a (des)igualdade de géneros no futebol e os objetivos para esta temporada.

Como surgiu a oportunidade de representar o Sporting?
Na altura representava o Anderlecht, na Bélgica. Já era a minha segunda época e as coisas corriam bastante bem. Recebi uma proposta do Sporting, mais propriamente da diretora de Futebol Feminino. Fiquei bastante contente porque é o clube do meu coração e era a oportunidade de regressar a Portugal com condições profissionais. Fiquei extremamente contente. Na altura também fiquei um bocado triste porque deixei os meus pais na Bélgica, que são muito importantes para mim. Foi complicado. Mas estou satisfeita por ter voltado e as coisas, como está à vista de todos, têm corrido bastante bem.

Como está a ser o período de adaptação ao Sporting? Os seus pais têm-na apoiado?
Sim, os meus pais apoiam-me bastante. Ficam contentes por as coisas estarem a correr bem. Embora estejam longe, através das novas tecnologias falamos todos os dias e vemo-nos sempre. Veem os jogos na televisão sempre que passam e ficam muito contentes e orgulhosos por eu estar feliz.

Como se sente por ter sido a melhor marcadora do campeonato na primeira volta?
Fico muito feliz. Principalmente por ser uma mais-valia para a equipa e por estar a ajudar a vencermos jogos e a lutarmos pela conquista dos nossos objetivos. Obviamente não faço nada sozinha, tenho a ajuda das minhas colegas, do staff, que é muito importante para esta corrida do campeonato e do resto das competições em que estamos inseridas. Fico muito contente por as coisas estarem a correr bem, pelo Sporting ter apostado em mim e por estar a ajudar a equipa.

Não sendo ponta-de-lança de raiz, como explica ter tantos golos marcados no campeonato?
Acho que as coisas têm corrido naturalmente, não sou ponta-de-lança de raiz nem jogo nessa posição. Sempre fui uma jogadora mais de assistir do que finalizadora porque jogo a extremo e não a avançado-centro e fico contente pelo meu trabalho e o da equipa se estar a transformar em jogos e em vitórias e espero que continue assim durante o resto do campeonato.

Acredita na conquista do título de campeão logo no ano de regresso do Sporting à modalidade?
Sim, claramente. Nunca escondemos que um dos nossos objetivos era ganhar o Campeonato Nacional logo na primeira época. Temos trabalhado bastante para isso ao longo destas semanas, destes meses, temos um espírito de grupo muito forte, uma direção que nos apoia imenso. Temos todas as condições para que isso aconteça. Só temos de fazer o nosso melhor: entrar dentro de campo, fazer aquilo que gostamos e sair de lá com vitórias.

Sente que o campeonato é desequilibrado ou, pelo contrário, os jogos são competitivos?
Há sempre jogos mais difíceis que outros. Obviamente que está um pouco mais competitivo do que na altura em que eu jogava cá antes de ir para fora, também há mais investimento por parte de alguns clubes. Ainda assim acho que falta também investimento das equipas que são teoricamente mais fracas, também a nível de condições para que possam treinar de outra maneira e ter outro rendimento, como nós temos. Aqui é-nos proporcionado tudo. A nível de recursos humanos, materiais, tudo o que precisamos, temos. Só temos de cumprir a nossa função: jogar dentro de quatro linhas, fazer golos e ganhar. A Federação também tem feito um trabalho excelente. Tem apoiado bastante a modalidade, atletas e isto começa a ter mais visibilidade. As pessoas e os adeptos gostam mais de ver, gostam de ir ao estádio, gostam de ver o seu clube a ganhar na modalidade feminina. E isso é muito importante para nós.

Ainda acha que há uma grande desigualdade de géneros entre o futebol masculino e feminino?
Sim, há. Não vamos esconder isso. Pouco a pouco as coisas vão evoluindo, mas ainda existe. Principalmente a nível monetário. Em condições nem tanto, pelo menos no Sporting. Mas sim, ainda existe bastante diferença. Também na visibilidade. Já temos alguma, mas não é nada comparado com o masculino. Mesmo a aderência dos adeptos, já aderem mais mas não tem nada a ver. Acredito que aos poucos e poucos podemos chegar lá.

Atualmente tem algum jogador/jogadora como referência? Algum ídolo de infância?
Não. Há sempre jogadores e jogadoras que eu gosto mais, como todas nós, mas não tenho assim um jogador ou jogadora de referência. Não esqueço os treinadores e as jogadoras com quem me cruzei ao longo destes anos, foi com eles que aprendi e passei a admirar certas qualidades em jogadoras, mas assim jogadores famosos não. Admiro as jogadoras com quem aprendi, cresci também a nível pessoal e não só futebolístico. E isso para mim é o mais importante.

Quais são as expetativas para o futuro?
Atualmente é representar o Sporting. É o clube que represento e que gosto de representar. Ganharmos as competições em que estamos inseridas. Se puder continuar a ajudar e a marcar golos ainda melhor, mas para já é no Sporting que eu penso.

E tem alguma meta em especial definida para 2017?
Sim. Para além de tudo o que já disse, gostava de ir ao Europeu na Holanda e poder ajudar a Seleção nessa caminhada.

Definiu alguma meta em termos de golos para esta temporada?
Não, não tenho nenhum objetivo quanto a isso. Como já disse, quero é ganhar, seja quem for que marque os golos. Mas também não escondo que já que neste momento sou a melhor marcadora, gostava de terminar a época com esse título individual.

O Sindicato definiu como prioridade a formação académica do jogador e da jogadora de futebol. A Solange está a estudar ou pretende regressar aos estudos?
De momento não estou a estudar. Antes de ir para fora terminei a minha licenciatura em Psicologia do Desporto. Na altura estava no primeiro ano do mestrado quando surgiu a oportunidade de ir para fora. Agora regressei com as condições profissionais e neste momento não estou a estudar, mas gostava de terminar o mestrado.

E conseguiu conciliar bem o futebol e os estudos? Os seus pais ajudaram-na?
Sim, os meus pais têm sido fundamentais, têm sido o meu pilar. Apoiam-me em tudo, ajudam-me no que preciso, são as pessoas mais importantes da minha vida.

Qual a sua opinião acerca do trabalho do SJPF em prol do futebol feminino?
O Sindicato é sem dúvida um órgão muito importante porque para além de nos ajudar, caso as jogadoras tenham algum problema, também divulgam bastante a modalidade. O SJPF apoia-nos bastante nisso, dá-nos mais visibilidade e qualquer problema que apareça ou que tenhamos, sabemos que podemos contar com ele. Isso é muito importante e também é um descanso para as jogadoras.