“Vim para a Suíça para lutar pelo título”


Campeão europeu pelo FC Porto, leva quase dez anos no estrangeiro. Aprendeu alemão para singrar no Wolfsburg, foi capitão do Valência e está no Lucerna à procura de ser campeão na Suíça.

Onde estava às 20h00 no dia 10 de julho de 2016?
Em casa, em Lucerna, e depois fui para a rua festejar com todos os portugueses. Mesmo não estando lá senti-me parte daquele grupo. É gritar de loucura e felicidade por ver Portugal ganhar um título que tanto buscávamos e que finalmente conseguimos.

Esteve presente em três Mundiais e um Europeu. O que ajudou mais a ser opção para vários selecionadores: a polivalência ou o profissionalismo?
Quando estás em três Mundiais com três treinadores diferentes é pelo teu profissionalismo e qualidade. Não é fácil jogar em várias posições, como central, lateral esquerdo e direito, não vês muitos jogadores com essa polivalência. Tive os melhores treinadores do mundo e jogar com eles faz-me acreditar no meu valor.

É o sexto país estrangeiro no qual vive. Tem optado por mudar ou aconteceu?
Optei. Vim para a Suíça para lutar pelo título. Optei por um projeto com uma capacidade financeira fora do normal, onde querem reduzir a diferença para o Basileia. Vim para ajudar e mostrar que ainda sou capaz. O melhor exemplo foi ter corrido 11 kms no último jogo. Ou estás bem fisicamente ou estás morto.

Que diferenças existem entre a Liga Suíça e a nossa?
A Liga Suíça é um bocadinho a Segunda Liga Alemã. Os clubes aqui investem em jogadores com 19/20 anos e todos os que dão cartas aqui depois entram na Bundesliga. Apostam bastante na formação e os jogadores estão muito bem preparados.

Como foi a adaptação à Suíça?
Foi fácil, tinha um português no clube e a vantagem de saber alemão. Mas não é fácil mudares da liga espanhola para a Suíça. Aqui é 4-4-2, dois pontas de lança, um com 1,90 metros e outro rápido para as segundas bolas. Em Espanha jogas em 4-3-3 ou 4-4-2 losango com jogadores criativos, com a bola rente à relva, aqui levas com o jogo aéreo. Essas mudanças custam.

Ser campeão na Alemanha num clube como o Wolfsburg é comparável ao quê em Portugal?
Foi uma aposta muito forte da Volkswagen. Em Portugal seria como o Braga injetar 100 milhões para ser campeão. Tive garantias do presidente e do Felix Magath que seria assim. Ele juntou um grupo sólido, que vivia para o trabalho e só tinha a meta de ser campeão. Foram anos difíceis, cada euro foi suado.

Esteve meia época no Lille e quatro anos no Valência. Foi o clube estrangeiro que mais o marcou?
É um clube que fica no coração. Foram quatro anos fantásticos, em que também tive momentos complicados. Tirando o FC Porto, que é o clube do coração, onde ganhei tudo, o Valência vem logo a seguir. Em Portugal não se tem muita noção, mas fui capitão do Valência e isso dá-te peso e um grande nome.

A braçadeira tem sido uma constante. Ter crescido ao lado de líderes como Jorge Costa e Vítor Baía ajudou?
Fui capitão em todo o lado, até no Qatar! O Jorge Costa e o Fernando Couto eram as minhas referências, adorava vê-los. Depois entrei no balneário do FC Porto, via o Jorge Costa e até tinha receio de falar com ele! Era o Bicho, o símbolo, tudo o que fazia eu seguia. Para seres líder tens de aprender com um grande líder.

A passagem pelo Qatar foi a mais diferente da nossa cultura. Voltava a repetir a experiência?
Não. Nos primeiros dois dias estava tudo bem, mas ao terceiro já estava a bater mal. Imagina o que é vir do Mundial 2014, entrar no Qatar e ensinar um miúdo, que é meu companheiro, a receber uma bola. Fiquei passado! Tentei ajudar, virei-me mais para treinador-jogador, porque tinha de ensinar-lhes muita coisa. Tenho lá muitos amigos, agora no futebol não dá.

Sempre se habituou bem à língua, comida, trânsito...?
Quando fui para o Wolfsburg foi difícil por causa da língua e da mentalidade. Saí do FC Porto, onde és um filho e as pessoas ajudam-te ao máximo, chegas à Alemanha e não te ajudam nada. Os primeiros quatro meses foram difíceis, também tive uma lesão. Foi a fase mais difícil dos meus dez anos no estrangeiro.

Alguma vez precisou do Sindicato?
Não. Até hoje nunca precisei de recorrer ao Sindicato porque as coisas correram sempre bem. Dou-me muito bem com o presidente, com o João Paulo, o Anselmo, pessoas que me conhecem muito bem. Mas sei que muitos colegas precisam de ajuda, os incumprimentos salariais são complicados. O Sindicato tem ajudado muito e naquilo que eu puder ajudar estou com o presidente para nunca faltar nada aos jogadores.

Aos 35 anos ainda pensa jogar em Portugal?
A minha ideia é voltar ao Boavista e ser jogador da equipa sénior, que nunca fui. Fiz lá a minha formação, transmitiram-me princípios e humildade para encarar todos os desafios sempre a ouvir o líder, que é o treinador. Treinava com chuteiras rotas no pelado, com os falecidos Queiró e Espinheira Rio, pessoas marcantes e que me ensinaram muito. Quero jogar um ano em Portugal e preparar-me para o que virá após o futebol.

Perfil
Nome: Ricardo Miguel Moreira da Costa
Data de nascimento: 16 de maio de 1981
Posição: Defesa
Clubes que representou: Boavista (formação), FC Porto B, FC Porto, Wolfsburg (Alemanha), Lille (França), Valência (Espanha), Al-Sailiya (Qatar), PAOK (Grécia), Granada (Espanha) e Lucerna (Suíça).