Faz tudo como se estivesses a ser observado


Desde o seu nascimento formal, em meados do século XIX, que o desporto é reconhecido como uma prática que promove valores éticos e coesão social. No entanto, bastante além desta matriz, o desporto em geral e o futebol em particular têm sido palco das mais diversas perversidades dentro e fora das quatro linhas. Violência, xenofobia, resultados combinados ou corrupção têm sido fenómenos lamentavelmente normais e contra os quais, felizmente, se tem vindo a lutar com intensidade, do ponto de vista institucional.  

Pese embora este paradoxo que encontramos no desporto, isto é, o facto de conjugar o potencial para a promoção dos mais nobres valores e simultaneamente manifestar frequentemente a ausência desses mesmos valores, o futebol em particular tem vindo a aumentar o seu capital de simpatia nas mais diversas culturas e azimutes do mundo inteiro. E esta simpatia, cuja intensidade se aproxima muitas vezes de uma verdadeira paixão, deve-se em particular às façanhas que os seus principais protagonistas – os jogadores – são capazes de realizar, motivando jovens do mundo inteiro a imitá-los e a quererem ser como eles.

Como exemplo deste impacto, podem ser observados os resultados de um inquérito levado a cabo recentemente pela BBC (2013), onde ficou demonstrado que 24% das crianças inglesas entre os 8 e os 12 anos desejam tornar-se futebolistas e que 35% destas têm como ídolo e modelo um jogador de futebol.

É por isso essencial que os jogadores assumam a sua responsabilidade perante a sociedade e particularmente perante os jovens que os idolatram. E esta responsabilidade vai muito mais além dos autógrafos que se possam dar ou das fotografias em conjunto que se possam tirar.

Esta responsabilidade passa, sobretudo, por uma conduta exemplar dentro e fora do campo, manifestando respeito pelos companheiros e pelos adversários e por todos os agentes do jogo, assim como pelas decisões do árbitro. No fundo, trata-se de respeitar o próprio jogo e de assumir o papel exemplar que a própria sociedade lhe confere e que faz com que ser jogador seja mais do que apenas jogar futebol.

Cientes da importância do futebol e do futebolista enquanto modelos sociais, também a Deloitte reconheceu no seu relatório acerca das tendências da indústria desportiva para 2017, a necessidade de o jogador ser participativo no âmbito de ações de ativismo social no e através do futebol e assim assumir perante a sociedade um papel positivo, significativo e multiplicador.

Nos dias que correm, todos, sem exceção, temos o dever de fazer do mundo um lugar melhor. Mas muito poucos temos o potencial que tem o jogador de futebol para que essa transformação não só ocorra como seja exponenciada. Também por esse motivo, o jogador, qualquer jogador, deve ser consciente de que tem esse potencial e que está permanentemente a ser observado.

Como tal, deverá transmitir uma mensagem e um exemplo positivo para os muitos que, nos diferentes lugares e níveis competitivos, observam e imitam todos os seus passos.