Ponham os olhos no Bayer Leverkusen!


Na semana dos oitavos-de-final da Liga dos Campeões, foi amplamente divulgada a dispensa do jogador Kai Havertz por parte da sua entidade empregadora, o Bayer Leverkusen, relativamente à partida que estes iriam disputar com o Atlético de Madrid e em que estava em jogo a passagem aos quartos-de-final. O motivo desta dispensa prendeu-se com o facto de o citado jogador ter marcados exames escolares para esta data, pelo que deveria dedicar-se ao estudo em vez de participar no referido jogo.

Não se sabe quem terá tomado iniciativa, se o clube ou o jogador, ou até se o resultado negativo da primeira mão (derrota por 4-2 em casa) terá influenciado a importância concedida ao jogo pelo clube alemão. Mas considerando a relevância do sucedido, tais factos são meros acessórios à discussão, tendo em conta as seguintes premissas: (1) trata-se de um jogador de apenas 17 anos que, longe de ser imprescindível na equipa, já foi utilizado em 20 jogos; (2) trata-se da Liga dos Campeões, a mais importante e mais lucrativa competição de clubes, onde além do prestígio, se joga, também e sempre, uma importante quantia monetária; e (3) trata-se de uma informação fornecida ao público em geral pela própria comunicação do Bayer Leverkusen através da sua conta no Twitter.

Ao assumi-lo publicamente, independentemente do potencial que reconheçam no jogador ou da importância da competição em causa, o Bayer Leverkusen demonstra quais as prioridades no que à formação dos seus jogadores diz respeito.

Ao reconhecer que o jogador ainda se encontra em processo de formação, pese embora o peso que já vai tendo na equipa sénior, demonstra paciência, seriedade e, sobretudo, responsabilidade, preferindo não queimar etapas no desenvolvimento do jogador e do cidadão.

Ao assumi-lo publicamente, o Bayer Leverkusen demonstra também que se preocupa, além da performance do jogador, com a sua formação integral, isto é, com a criação das condições que permitam ao jogador promover uma carreira de bom nível após a sua etapa como futebolista.

E este ponto, o reconhecimento do atleta/jogador na sua perspetiva integral, é, do nosso ponto de vista, o fator mais importante e mais relevante desta situação.

Desde há alguns anos a esta parte que os diferentes clubes e federações desportivas se têm preocupado em desenvolver os seus modelos de desenvolvimento do atleta a longo prazo, isto é, são definidos determinados perfis de performance no escalão sénior, e logo é construída toda a pirâmide de etapas que, articuladas entre si, permitem a formação de um jogador com determinadas características físicas, técnico-táticas ou psicossociais enquanto atleta, isto é, um determinado ADN. São disso exemplo, os célebres modelos anglo-saxónicos do Long-Term Athlete Development (LTAD) ou Long-Term Player Development (LTPD).

Contudo, a década de 10 do século XXI tem trazido novas perspetivas, de maior abrangência, também motivadas pelos inúmeros casos de ex-jogadores e ex-atletas que, findas as suas carreiras competitivas, se veem a braços com situações de desemprego ou graves dificuldades financeiras, sem qualquer formação para enfrentar o mercado de trabalho e com o sentimento de ativo descartável por parte das entidades que os “formaram” ou que representaram.

Essas perspetivas, muito associadas ao conceito de carreira dual, englobam, além do desenvolvimento da performance de acordo com um modelo estabelecido, o desenvolvimento do jogador numa dimensão mais ampla que, além do desempenho competitivo, integra as suas competências pessoais, cívicas, sanitárias ou as suas necessidades formativas.

As Recomendações da União Europeia para o desenvolvimento das carreiras duais, publicadas em 2012, são um dos mais importantes documentos publicados com vista à promoção da relação entre a carreira desportiva e a formação académica. É no seguimento deste que, por exemplo, estão neste momento, cerca de 10 projetos europeus de financiamento (Erasmus+) relacionados com a promoção, a diversos níveis, das carreiras duais nos países e instituições europeias com responsabilidade na matéria.

Naturalmente, o foco nesta temática não é inédito. O primeiro a falar da necessidade de formação integral do jogador de futebol foi Johan Cruyff. Mas só recentemente emerge e se difunde essa perspetiva e, sobretudo, a sua operacionalização. Contudo, assumir publicamente esta questão num clube e competição com esta dimensão terá sido a primeira vez.

Parabéns ao Bayer Leverkusen pelo exemplo que deu ao futebol, ao desporto e à sociedade.